Passavam quinze minutos das dezasseis horas, e Luísa continuava sozinha, na mesa habitual. O senhor Carlos limpava o balcão e observava-a pelo canto do olho. Ela estava inquieta. Agarrava a carteira, remexia o interior e voltava a pousá-la. Olhava ao redor como se estranhasse o lugar que frequentava todas as terças-feiras. Segurava o telemóvel entre os dedos e pousava-o sem olhar. Por fim, como se tivesse tomado uma decisão, a jovem levantou-se e dirigiu-se ao balcão.
— Um café e um quindim, senhor Carlos.
O senhor Carlos estranhou o pedido, mas não o comentou.
— Os bolos chegaram mais tarde hoje, menina Luísa. Ainda estão quentes.
— Não faz mal, vou prová-lo assim mesmo.
— Levo-o já à mesa.
Intrigado, preparou o tabuleiro e, ao entregar o pedido, encheu-se de coragem e perguntou:
— Hoje, está sozinha?
— Sim. — Uma lágrima brilhou no rosto contraído. O tremor do queixo denunciava o esforço que Luísa fazia para se conter.
O senhor Carlos sentou-se na cadeira ao lado da jovem.
— Aconteceu alguma coisa com a sua amiga?
Ela desfez-se em lágrimas e ele esperou que se acalmasse.
— A Sónia teve um acidente… — um soluço interrompeu-a. — É tão difícil acreditar! Parece que, a qualquer momento, ela vai entrar por aquela porta, dar a sua risada contagiante e desfazer-se em desculpas pelo atrasado.
Ele manteve-se em silêncio por um instante e, depois, perguntou:
— Porquê o quindim, hoje? Pediam sempre um pastel de nata.
— Ela dizia que queria provar o quindim. O aspeto seduzia-a, mas acabava sempre por pedir o mesmo. Dizia que experimentaria o pudim mais tarde, talvez como sobremesa numa saída especial. — Um soluço sufocou-lhe a voz. — Agora nunca o provará!
— Daí o pedido diferente de hoje — murmurou o senhor Carlos.
— Sim, em homenagem a ela. — respondeu.
O senhor Carlos levantou-se e voltou dois minutos depois com mais um café e um quindim, que pousou sobre mesa.
Luísa levantou os olhos lacrimejantes e viu-o sentar-se ao seu lado. Sem dizer uma palavra, o senhor Carlos deu um gole no café e uma dentada no seu bolo. Não falaram, mas ela sorriu, agradecida
Ana Belfo André
Maio 2026