Há lugares que nos falam, mesmo quando tudo o que resta são paredes quebradas e silêncios antigos.
Quando caminho entre os vestígios de um povo longínquo, deixo-me levar pelas sensações que habitam o local. Fecho os olhos e imagino-me naquele lugar, noutro tempo. Inspiro os aromas que o vento me traz e atento nos sons da natureza. O rumorejar de um rio, o piar de uma ave, o crepitar dos sapatos no chão que piso. Sinto as sombras, o roçar das ervas nas pernas, a brisa na folhagem das árvores.
Observo os muros fortificados, restos de paredes, cerâmicas partidas, desenhos gravados, degraus escavados na rocha. As pedras gastas pelo tempo tornam-se mais do que matéria; são sinais de vidas passadas, marcas de presenças que o tempo não consegue apagar.
Imagino os rostos, as mãos calejadas que moldavam o barro, os pés descalços sobre a terra dura. Que sons preenchiam aquelas casas? Que aromas saíam dos potes ao lume?
O que comiam, como se vestiam, o que os fazia rir ou calar?
Penso nos seus medos e nos seus deuses. No frio das noites, na esperança das colheitas.
Talvez houvesse amor ali. Talvez mágoas antigas, pactos e promessas à sombra dos montes.
Na minha mente oiço vozes entusiasmadas, risos de crianças a correr entre as casas ou a mergulhar nos rios.
Vejo mulheres nas suas túnicas a trabalhar nos teares para confecionar as roupas que os aquecem no inverno, a moer os cereais, a mexer nos potes colocados sobre as fogueiras ou a coser pão nos fornos que adivinhamos nas pedras que ali repousam.
Os homens saem com lanças, arcos e flechas para caçar ou apanhar peixe nas águas do rio. Reúnem-se à volta das fogueiras para decidir o futuro, enquanto vigias colocados em pontos estratégicos da muralha controlam a paisagem circundante, prontos a dar o alerta em caso de ameaça.
Viajantes chegam ao local para comercializar produtos vindos de outras paragens.
Num instante, o local que me rodeia, onde momentos antes um conjunto de pedras se amontoava, ganha vida.
Observo a pedra que piso. Quem a terá pisado também? Uma criança a correr, chamando pelos amigos; uma mulher com um bebé nos braços; um homem a namoriscar uma moça? Um idoso a dirigir-se para o concelho de anciãos com um segredo angustiante; ou um sacerdote a caminho da cerimónia que homenageará os seus deuses? Terão sido atacados por guerreiros que invadiram a aldeia e saquearam o que produziram e acumularam?
Que medos, que alegrias, que silêncios?
Nada me é dito com certeza, mas tudo parece possível. Nestas pausas em que observo o que o tempo deixou, nasce em mim um respeito profundo por essas vidas anónimas que, como eu, procuravam sentido no que tinham.
E ao partir, levo comigo esse eco. Um murmúrio que não sei traduzir, mas que me acompanha. Como se, por instantes, tivesse pertencido àquela terra também.
Imagino-me a viver noutros tempos tendo aquela paisagem como fundo. Na minha mente, constroem-se histórias, personagens e vivências.
E as ruínas ganham vida.
Ana Belfo André
Julho 2025