A felicidade é feita de momentos assim, que se alojam no pensamento e nos abraçam quando envelhecemos.
Recosto-me na cadeira e fecho os olhos. A brisa acaricia-me o corpo, trazendo no seu hálito fresco o perfume da erva e das flores silvestres. Relaxo, entorpecida pela quietude do momento. O sono insinua-se devagar e arrasta-me para outros tempos. Vejo um jardim onde brinco, eu e os meus irmãos, pequenos ainda, livres do peso dos dias. Rimos juntos das brincadeiras que um inventa e os outros seguem, fascinados, entre corridas e tropeções, ao som de risadas cristalinas. São tempos leves. Não nos preocupa o amanhã nem o olhar dos outros. Apenas o instante. Às vezes, os vizinhos observam-nos com um sorriso demorado, talvez com saudade da infância que lhes escapa entre os dedos da memória.
Os nossos pais não estão longe. Não os vemos sempre, mas sabemos que estão por perto. Vigilantes. Presentes. De mãos dadas, eternamente enamorados, observam as crias com aquele orgulho silencioso que nasce de um amor partilhado. Nutrem um pelo outro um amor que todos reconhecem, mesmo sem precisarem de anunciá-lo. Sentem-no. E isso basta-lhes. Um amor resistente, persistente, que lançou raízes profundas nos filhos que brincam naquele jardim.
Talvez seja isto a felicidade: momentos simples que se alojam na memória e permanecem connosco. Momentos que regressam anos depois para nos abraçar, quando envelhecemos um pouco mais, fechamos os olhos e nos recostamos numa cadeira, enquanto a brisa nos beija o corpo.
Ana Belfo André
Março 2026